segunda-feira, 8 de setembro de 2014

"Até que a morte os separe"

Mesmo vendo o sangue riscar a neve, ela ainda ousou dizer que conseguia voar. Mesmo quando na agonia o perdia, ela respirava e afirmava que conseguiria voar, mesmo sem asas, sozinha e sem calma. Ela desejava voar. As asas são símbolos de uma história sonhada, tão querida por ela. Asas que apesar de serem abstratas permitem-na sair do lugar, sem ter hora pra chegar, sem dar explicação.
Poetizar o mar foi o que ela fez naquela noite, ao observar a força, a doçura e a música que impulsionavam aquelas águas, numa dança de dor e alegria, de desespero e fantasia, fazendo-a se entregar, sem ter a tal hora pra chegar, sem querer tocar o chão, voltando sem um pedaço de si, pois alguma coisa tão profunda e amável ele deve ter roubado aquela noite. Algo sobre um sonho, um olhar, um futuro do presente, vivido num pretérito mais-que-perfeito.
Quão lindo os olhos negros da noite, e quão doces os lábios do vento tocando os seus. Deve ter sido quente sentir a água do mar nadando em seu corpo, fazendo-o arrepiar. Foi estranho assim tentar amar. Foi difícil aceitar a diferença, mas a paixão que a ela cerca foi além do real, foi como algo nada natural, mesmo sendo o casamento de duas naturezas intensas e livres na beira mar. Foi como nadar e se perder dentro de si... nadar sem respirar, pois o tempo não poderia ser desperdiçado, as asas estavam cansando e o amor só começando.
Pousar, isso ela já não conseguia mais, estava anestesiada, dopada pela paisagem perfeita que esconde durante o dia grande parte do seu romance, de sua poesia. As ondas sem direção a faziam querer perder os sentidos, faziam querer buscar o abismo e se tornar vento junto aquela imensidão, que por segundos é mansa e por milésimos de segundos é forte o suficiente para ferir seu coração, retirando aquele líquido vermelho que ele deixou cair em uma neve qualquer, num dia sem sol.
“Até que a morte os separe”, foi só o que ela ainda conseguiu escutar. A dor já era intensa demais e o final daquele corredor adornado com rosas vermelhas já estava acabando e ela se aproximando dele, até que subitamente um grito foi escutado e aquela fada branca e brilhante que caminhava caiu ao chão e se fez morte e se fez a causa da separação.

por Brenda Oliveira





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