J P
de Oliveira- (amalgamacultural.net)
O que fizeram
das palavras, tão belas e tão delicadamente desenhadas numa folha de papel? O
que fizeram com a dança suave das mãos, que firmes, seguravam um lápis e escreviam
sonhos, amores, memórias... belas histórias? Tudo o que vejo hoje, são letras
sem vida, sem fulgor, sem amor. Letras que nunca se cansam, que não amam e que
não sabem o que é sentir uma “agradável” dor. Letras computadorizadas, erradas,
sem calma e com tinta infinita, com mentiras disfarçadas. É... acredito que até
aqui resistiu a emoção...agora estamos numa outra forma. Isso é um tanto
triste.
Tantas cartas
recebi, algumas poucas escrevi. Muitas delas me fizeram chorar, outras tantas
sonhar. As letras tão bem desenhadas ou garranchos com erros de “fábrica”
fizeram sentir-me viva... importante para alguém ou tola, ingênua, pois as
cartas eram assim...um filme que rodava em preto, azul....ou numa página quase
em branco, apenas com um nome escrito em um dos cantos... Nunca foram apenas
pedaços de papel. Nunca foram fáceis de escrever. Nunca foram fáceis de ler.
Sempre tiveram muitos segredos, muitos anos e muitos apelos. Sempre quiseram
falar, mas já nasciam mudas e presas num belo envelope, algemadas com cera nobre,
escondendo o vigor de seus tempos, e que tempos...
Tempos em que o
romance durava uma vida, a paixão jamais se arrependia e o medo era a rebeldia
de quem não sabia amar. Tempos em que a espera era o florescer de uma rosa: tímida,
perdida, porém determinada e pontualmente encontrada. Encontrada pelos olhos
certos, castanhos, pretos ou amarelos... Olhos que viam além das tintas, além
das palavras escritas, além das ilusões.
Como não sentir
saudade de um tempo poeta?! Tempo que não tinha pressa para encontrar, resgatar
ou se perder por amor. Saudade de não ter nascido numa época em que as cartas
eram a maior denúncia de um “crime”, por muitas vezes ainda não cometido, de um
beijo não roubado, ganhado, dado.... de um abraço tímido, mas forte e muito bem
quisto. Um “crime” quase perfeito, mas traído pelo mesmo “quase”.
Por tantos anos
as palavras eram pérolas. Elas sangravam nas folhas de papel. Hoje elas apenas
existem, sem forças e quase sem verdade. A cada dia é mais difícil reconhecer o
significado do que se escreve, não pela caligrafia, por vezes “deformada”, mas
pelas mentiras tão explícitas e tão bem camufladas, que não são apenas escritas,
mas também ditas e muito bem autografadas. As cartas sempre são vivas, mesmo
com passar dos anos. Elas tem voz, tem cheiro, são confissões. Nas cartas,
quando há um erro, podemos até borrar, riscar, mas jamais totalmente apagar. São como cicatrizes reais que tatuam as “peles de papel”. A verdade expressada
por ente singelo objeto, assusta quem não está acostumado a viver, a errar, a
ser o que o tempo, naquele momento, o propiciou.
Eu ainda sonho com
o dia em que haverá o resgate dessas cartas “escritas à mão”, na luta de
tentarem vencer e perder para si mesmas. Eu espero que a valorização da timidez
aconteça... Que os versos só descrevam belezas... Que nasçam mais almas
poetas... Que o cantar seja sempre confissão. Que a dança revele almas
em ascensão e que a escrita não morra de solidão.
por
Brenda Oliveira.
A escrita sempre vai morrer de solidão, escrever é morrer de solidão, eu também já esperei que não fosse, mas é, ainda que um milhão de pessoas leiam, ainda que seja alegre a escrita, ainda que seja uma carta a um amor correspondido escrita com caneta esferográfica, mesmo assim, será sempre solitário, sempre... Lindo texto, especialmente essa frase: " Como não sentir saudade de um tempo poeta?! Tempo que não tinha pressa para encontrar, resgatar ou se perder por amor.
ResponderExcluirMais que nunca acredito que morremos aos poucos amiga....e a solidão é o nosso primeiro marido então....rsrs....Ow...saudade!!!...
ResponderExcluirGrata pelo comentário....Até próxima NOTA!!