segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Uma folha que sangra

                 Ia pensando... “Quanto mais distante, maior a poesia. Quanto maior o silêncio, mais verdadeira é a confissão”. É assim que se veem a vida, é assim que ela habita no seu mundo.
                 Movimento de sentimentos, que podem levar a convulsão, com palavras confusas. Eu queria que você fosse real, mas a poesia é uma fantasia que me ensina que o amor é abstrato, nada além de um fato, que eu imageticamente, premeditei.
                 É engraçado falar de amor quando nunca se amou de fato. O que é amar? Hoje em dia amamos chocolate, amamos a roupa da moda, mas será que amor se resume a isto? Que coisa pequena seria amar, medíocre até.
              Mas como eu ia pensando... Eu segui e percebi que é impossível amar sem ser piegas, sem ser birrento e até infantil. É impossível abraçar um sentimento tão confuso quando somos tão racionais. Pra quê poesia se meu mundo se revela como um perfeito “artigo científico”? O amor não precisa de referências, não precisa de leitura, só vivência. Uma bela e agradável “pesquisa de campo”.
               Ele é uma dissertação trabalhosa, dolorosa, que toda vez que tentamos escrevê-lo percebemos que falta. Falta tudo e ao mesmo tempo nada. Uma pesquisa contínua que prefiro que durem anos e anos, que nunca se acabe. Quero que seja renovada a cada movimento, nos detalhes das sensações que temos quando estamos junto ao alguém.

            Acho que por isso que não tenho definição, não tenho resolução. Sou um produto inacabado. Sou torta para o mundo. Não faço parte dos fatos. Não amo o que raso, pois não seria feliz. 
             É através de uma folha de papel, uma vida que matei, que escrevo desejosa da liberdade que eu mesma mantenho num cativeiro frio e escondido. Eu não me encontro, fico perdida dentro de mim e só com a ponta de um lápis a fazer sangrar este doce papel, é que enxergo as amarras, as almas que tenho sufocado em mim.
           Guardo no peito as sombras que a vida poderia me proporcionar, por preferir sofrer ao sol a me abrigar. Eu prefiro seguir, mesmo que seguindo a poesia me aborte, por não ter sido fiel em querer voltar e receber o que só um grande amor poderia me dar.
              Eu poderia dizer que quando escrevo minto, mas a minha alma flui tão facilmente que seria doloroso assumir isso, prefiro ficar na minha, secar as feridas e espera-las cicatrizarem. As minhas cicatrizes são tão valiosas que prefiro guarda-las no peito e fingir que eu me perdoei.
                  Acredito que você prefere que eu me esconda, que não me ame, para que sobre tudo para você. Se eu estivesse à mostra não teria valor, por que eu não teria mistério, não teria o que sustenta o momento efêmero da descoberta. Eu não te daria o gozo do encontro.
                     Estou sem pensamentos dignos de uma grande poeta, estou definhando sem palavras, só estou a cicatrizar, mesmo querendo e precisando, loucamente, sangrar minha alma, fazê-la sofrer, fazê-la amar, logo por que quando não sofremos a vida se torna tão pacata, acho que é por isso que tenho a sensação de querer viver num abismo, ser a ponta do iceberg.
                  Eu quero ter vidas e mais vidas dentro de mim. Quero ser o teu caminho sem fim. A tua voz mais sincera, mesmo no engano do amor. Amar não é apenas compor uma cena, é adiar a morte quando já estavas a consumá-la. O amor resgata, mas também pode te jogar à beira-mar.

por Brenda Oliveira.

4 comentários:

  1. Moça!!! Putz, fazia tempo que eu queria ler um texto desses por aqui, que é pra poder comentar amplamente como agora, pois este não é apenas belo e poético como os anteriores, esse é também literariamente rico. Primeiro, pela primeira vez eu pude visualizar claramente a união dos tipos textuais num texto seu, o narrativo e o dissertativo(analise, interpretação), e unir tipos textuais enriquece o estilo crônicas e contos. Segundo, não houve uma linha sequer com a presença do tipo textual argumentativo (imposição, convencimento), o que permitiu ao leitor enxergar a narração como pensamentos jogados e o permitiu concordar ou discordar do que diz a narrativa. Terceiro, "Uma bela e agradável pesquisa de campo”, você trouxe dualidade e ironia a um texto sentimentalmente carregado, foi genial! Quarto, “o gozo do encontro”, essa união de palavras que exercem nobreza e pobreza ao vocabulário é típica da literatura contemporânea, ótima sacada! Quinto, ficou evidente que você tem feito o dever de casa de quem escreve, ler muito, mas sobretudo ler os estilos que escreve (no caso contos e crônicas), pois ajuda a que mesmo sem as regras e os conceitos literários decorados (como tipos textuais, linguagens, etc), a você tornar-se capaz de aplica-los, ainda que instintivamente e escrever um texto tão rico quanto esse que acabo de ler. Maravilhoso, aquela tal de Tiara Sousa, que também tem um blog perdeu foi feio, rsrsrs.

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  2. Eita nega...fiquei muito emocionada. Que belas palavras. Fico muito feliz em saber que algo que faço com tanto carinho e sem 'amarras', livremente, assim como cito no inicio do blog: "quero sempre me sentir livre ao escrever", chegue a ser um texto literariamente rico, segundo sua análise. Obrigada!!
    Ui...você perdeu. (risos)....isso é pressão psicológica!! rsrs...
    Abraços....e até a próxima NOTA!!!

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  3. Obrigada Jacque!!! Até as próximas NOTAS!!!! beijos...

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